Como posso apoiar enquanto pai ou mãe?

Se o seu filho ou a sua filha é homossexual, bissexual ou trans(género), como pode apoiá-lo?

A importância dos pais

À semelhança do processo de revelação da orientação sexual ou identidade/expressão de género, ser pai ou mãe e simultaneamente atento e ativo no processo de ajuda de um filho que é lésbica, gay, bissexual ou trans (LGBT) ou com dúvidas pode ser também uma tarefa que implica uma componente social e outra pessoal - por um lado ter de lidar com o meio e com as expectativas, exigências e papéis que este nos impõe, por outro lidar com um conjunto de princípios que nos são pessoais e que influenciam a forma como pensamos, sentimos e agimos.

Os últimos 20 anos de investigação social têm mostrado que os estilos parentais desempenham um grande impacto na forma como os jovens se desenvolvem, nomeadamente na construção de uma identidade saudável e na forma como se posicionam face às ameaças do meio externo. Por exemplo, estudos diversos sugerem que o apoio, a aceitação e o reconhecimento da orientação sexual por parte dos pais são preditores de uma boa adaptação psicológica dos filhos; ao contrário, a rejeição ou negligência parental está na base de uma maior vulnerabilidade dos jovens a situações de abuso, como bullying ou até mesmo à ideação e/ou tentativa de suicídio.

É consensual nalguns estudos transculturais que as famílias com filhos ou filhas LGBT passam por etapas semelhantes às do processo do ou da jovem se assumir como lésbica, gay, bissexual e/ou transgénero para si próprio/a. Essas etapas alternam entre a desintegração familiar (caracterizada pelos sentimentos de desamparo), a ambivalência (dúvidas sobre como reagir ou atuar) e a integração (renovação da estrutura familiar). Apesar de grande parte das famílias se encontrarem em posição de indefinição quando confrontadas com um filho ou filha LGBT, existem famílias que revelam uma atitude positiva perante esta realidade e que, no entanto, têm dúvidas sobre como lidar com um conjunto de questões, sejam elas: se o filho ou filha sofrerá retaliações da sociedade em geral; o que o resto da família, amigos e colegas lhes poderão dizer; a forma como encaixam essa realidade noutros paradigmas como, por exemplo, a sua religião.

Estas questões ou dúvidas assistem a maioria das famílias, mas só é possível ajudar enquanto pai ou mãe, ou figura parental, que sabe ou desconfia que tem um filho ou filha LGBT se assumir o desafio de substituir as respostas negativas por uma atitude de compreensão e aceitação da individualidade do seu filho ou da sua filha. Esta atitude implica que também a figura parental tenha respeitado o seu próprio processo de desmistificação de uma série de preconceitos em torno do que é a orientação sexual e identidade ou expressão de género, e que consiga então proporcionar o apoio e afetos necessários àquilo que o seu filho ou filha lhe partilha.


Como pode apoiar?

Formas das famílias se auto-ajudarem a lidar de forma positiva com a orientação sexual ou identidade ou expressão de género de um filho ou filha parte essencialmente de melhorar a comunicação no seu interior e com as outras pessoas. Para que seja promovido este amadurecimento da integração familiar é útil que os pais:

Tenham consciência do tempo que eles próprios precisam para amadurecer e adaptarem-se à realidade de terem um filho ou uma filha LGBT;
Procurem informar-se sobre as questões da orientação sexual e identidade ou expressão de género, ou mesmo procurem falar com pais que tenham ultrapassado estas questões;
Criem um contexto de abertura e confiança para que o seu filho ou filha sintam a segurança que necessitam para expor os seus sentimentos;
Se sentirem que é necessário, contactarem um profissional de saúde mental especializado que os ajude a lidar com as dúvidas ou questões que surjam em torno destes assuntos.


Caso simplesmente desconfie da orientação sexual ou identidade ou expressão de género do seu filho ou da sua filha, sem que ele ou ela o tenham revelado, é importante que os pais, ou outros agentes familiares, abordem positivamente as questões da orientação sexual e identidade ou expressão de género, para que ele ou ela sinta que o seu seio familiar garante um espaço de confiança para o poder revelar, caso tencione fazê-lo.

Ao garantirem que conseguem proporcionar um espaço de partilha e respeito mútuo, os pais estão a facilitar que o seu filho ou filha lide de forma positiva com a sua orientação sexual ou identidade ou expressão de género e assim estabeleça um sentimento de pertença, capaz de lhe facultar as ferramentas que necessita para lidar de uma forma mais resiliente com eventuais dificuldades que o meio externo lhes imponha. Simultaneamente, os pais estão igualmente a prepararem-se para responder de forma assertiva às dúvidas que coloquem em causa a aliança familiar que se estabeleceu. Eis alguns exemplos do que os pais podem fazer em concreto:


Se tem um filho ou uma filha lésbica, gay ou bissexual

Tratar o namorado do seu filho ou a namorada da sua filha da mesma forma como tratariam se de um filho ou uma filha heterossexual se tratasse, não chamando "o teu amigo" ou "a tua amiga";
Convidar o namorado do seu filho ou a namorada da sua filha para as festas familiares em que é hábito convidar-se os namorados ou assegurar que o seu filho ou a sua filha não sinta diferença de trato;
Valorizar as partilhas que o seu filho ou a sua filha lhe faz e que passam por questões da sua orientação sexual, sem descredibilizar a sua importância;
Demonstrar iniciativa ou interesse em perguntar pelos seus afetos, evitando que se estabeleça um pacto de silêncio que relacione as questões da sexualidade ao tabu;
Mostrar que não tem vergonha que o seu filho ou a sua filha fale abertamente sobre os seus afetos, e consequentemente sobre a sua sexualidade, evitando anular a liberdade que este ou esta tem para o poder fazer a quem desejar;
Relacionar-se com os amigos do seu filho ou da sua filha sem tecer considerações alimentadas por ideias pré-estabelecidas acerca da sua orientação sexual;
Deixar claro que nenhuma situação familiar ou conjugal menos positiva é consequência do seu filho ou da sua filha ter assumido a sua orientação sexual;
Em ambientes sociais não perpetuar comentários que ridicularizem pessoas LGBT e tentar inclusive aproveitar as oportunidades para quebrar preconceitos e estereótipos;
Ter um papel ativo ao denunciar todas as tentativas de profissionais do meio do seu filho ou da sua filha (por exemplo, professores, psicólogos ou médicos) mudarem a sua sexualidade;
Disponibilizar o seu apoio enquanto pai ou mãe em situações em que o seu filho ou a sua filha seja penalizado de alguma forma por questões relacionadas com a sua orientação sexual.



Se tem um filho ou uma filha trans

Não forçar a conformidade do seu filho ou da sua filha aos padrões de género pré-definidos, assumindo a liberdade que este ou esta tem de poder definir-se de acordo como se sente;
Não assumir que se o seu filho ou a sua filha tiver uma expressão de género diferente da norma isso significa que se identifica com um sexo diferente do seu;
Procurar informação sobre transgenerismo e a forma como este conceito é independente da orientação sexual, evitando ilações erróneas sobre a orientação sexual do seu filho ou da sua filha;
Tratar o seu filho ou a sua filha conforme a identidade de género com a qual se identifica e respeitar a forma como ele ou ela deseja que o tratem na sua globalidade, independentemente do seu sexo biológico;
Criar um contexto familiar de integração e respeito pela identidade ou expressão de género do seu filho ou da sua filha, evitando forçá-lo/a a agir com base em modelos de género pré-concebidos, quaisquer que eles sejam;
Respeitar a liberdade no acesso a locais frequentados pelas pessoas do sexo com o qual o seu filho ou a sua filha se identifica, como por exemplo numa casa de banho pública ou num vestuário;
Adotar uma postura não culpabilizante, sem se envolver na atribuição de causas precoces para a identidade ou expressão de género do seu filho ou da sua filha;
Quando oferece presentes, fazê-lo tendo em consideração os gostos com os quais o seu filho ou a sua filha se identifica e não aqueles que enquanto figura parental desejaria com que se identificasse;
Certificar-se que o seu filho ou a sua filha se integra num meio social seguro e clarificar que ele ou ela podem contar com o seu apoio para qualquer situação que o/a deixe mais fragilizado/a, em consequência da sua identidade ou expressão de género;
Se o seu filho ou a sua filha for transexual e desejar cuidados clínicos que o tornem mais confortável com a sua identidade, informar-se para poder apoiá-lo/a da melhor maneira possível;
Procurar falar com outras pessoas (pais com filhos trans, pessoas trans ou que trabalhem na área) para melhor poder lidar com as questões que surjam relacionadas com a identidade ou expressão de género;
Estar atento às tentativas alheias de convencer o seu filho ou a sua filha a conformar-se com o seu corpo ou que o/a punam por ir contra as normas sociais vigentes, procurando repreender ou denunciar essas situações;
Facilitar o acesso do seu filho ou da sua filha aos cuidados de saúde adequados, certificando-se que aí encontrará um tratamento ajustado às necessidades e desejos específicos deste/a.



Todas estas particularidades que fazem parte do reportório do que os pais podem fazer e devem evitar quando sabem ou desconfiam que têm um filho ou filha LGBT estão, em suma, a gerar um forte sentimento de integração familiar e segurança psicológica, permitindo que os seus filhos se autonomizem e enriqueçam a sua definição individual. A síntese entre a identidade do grupo social a que pertencem e dos seus valores familiares, quando assegurada por um ambiente familiar sólido, proporcionará uma maior capacidade de intimidade e de investimento na relação com os outros.

Para outras questões ou dúvidas aconselhamos a todos os pais e mães que não tenham vergonha de as expor à Casa Qui, pois sabemos que ultrapassar este desafio é o que permite uma integração familiar plena.

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